A FAZENDA: ajudante de alfaiate
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domingo, 1 de setembro de 2019

AJUDANTE DE ALFAIATE





Depois que vendendo picolés não me saí muito bem, meu tio, irmão de minha mãe arrumou um emprego para mim como ajudante de alfaiate.
Na cidade tem uma galeria com várias lojas. O nome eh Galeria Orion. Uma destas lojas eh de um alfaiate. Ele presta serviço para a loja Bemoreira Ducal que fica na Avenida Primeiro de Junho. Os homens que iam se casar na cidade e cidades vizinhas comprava os ternos na Bemoreira e este alfaiate ajustava as calças, as camisas e os paletós para o tamanho dos noivos.


Os homens que fosse casar no sábado e fossem comprar terno na Bemoreira iam lá na segunda feira na parte da manhã, para experimentar os ternos, pois o alfaiate ficava na Bemoreira na segunda feira o dia todo. Mas se durante a semana aparecesse algum outro noivo comprando o terno lá, eles mandavam chamar o alfaiate e ele ia até a Bemoreira, que fica só três quarteirões da Galeria Orion.


Assim ele veria o que precisava ser feito no terno para ficar do tamanho que o noivo precisava. Depois ele levava os ternos para a alfaiataria e fazia os ajustes. Tudo que eu precisava fazer era levar os ternos na sexta feira a tarde de volta para a loja, assim os noivos iriam no sábado buscar os ternos, pois os casamentos seriam no sábado e a alfaiataria não abria no sábado. Comecei na terça feira, porque segunda o alfaiate estava na Bemoreira.
O alfaiate me disse que eram cinco ternos somente e que até sexta estariam prontos. Eu não tenho nada pra fazer, fico ali sentando o dia todo e o tempo não passa de jeito nenhum. Só saio quando ele me pede para comprar pão pra gente tomar café da tarde. O café ele mesmo que coou ali na alfaiataria. Eu não conseguia ficar ali parado sem fazer nada e então, no outro dia fiquei andando pela galeria, mas o tempo todo passava na porta da alfaiataria para ver se ele precisava de mim.

Eu perguntei a ele primeiro se eu podia ficar dando voltas por ali, ele disse que não tinha problemas desde que ficasse por perto. Enfim chegou sexta feira e nesses quatros dias de serviço a melhor hora tem sido a hora do café. 
As lojas aqui da cidade abrem às sete horas da manhã e fecham às seis horas da tarde e no sábado fecham ao meio dia. A alfaiataria não abre no sábado.

Na sexta feira, faltando aproximadamente uns quinze minutos para seis da tarde, o alfaiate me deu os ternos que ele tinha ajustado e pediu que eu os entregasse na loja. Disse que já ia fechar e que de lá eu poderia ir embora. Então fui até a loja e quis entregar para a primeira funcionária que vi. Ela não quis pegar os ternos e chamou o gerente. O gerente também não queria pegar os ternos, mas eu disse que o alfaiate tinha pedido para eu entregar ali porque os noivos iam pegar amanhã para se casarem. O gerente então disse que tudo bem, podia deixar ali. Entreguei a ele e fui embora pra casa.
Sábado levantei no mesmo horário de sempre e depois que tomei café fui pra rua brincar. Por volta das dez horas da manhã o alfaiate foi até minha casa me procurando. Ele chamou lá em casa e ficou conversando com meu pai. Ele parecia nervoso. Eu vi ele chegando, pois estava no canto da linha. Meu pai olhou pra mim e gritou: vem aqui peste!
Fui até eles e quando fui chegando meu pai já foi gritando comigo e meu deu um tapão na cabeça perguntando o que eu tinha feito com os ternos.




Quando eu disse que tinha entregado na loja meu pai me deu um tapa no rosto me chamando de praga dizendo que eu não tinha entregado nada lá. Nesta hora o alfaiate pediu para meu pai não fazer isso e me perguntou o que eu tinha feito com os ternos. Disse que tinha entregado na loja para o gerente. Meu pai me chamou de mentiroso, me deu outro tapa no rosto e eu cai no chão. O alfaiate falou para meu pai não fazer mais isso e pediu que eu fosse com ele até a loja para mostrar o gerente que eu tinha entregado os ternos.

Os meninos que estavam brincando na rua com a gente ficaram rindo de me ver apanhando e zoando com isso. E assim fui com o alfaiate e meu pai até a loja para mostrar qual gerente tinha entregado os ternos.
Quando chegamos na Rua Goiás levei o alfaiate e meu pai até a loja e disse que tinha sido ali. O alfaiate virou pra mim e disse: você tá de brincadeira né? Eu disse que não, tinha entregado ali mesmo.


Nós entramos na loja e o gerente me vendo veio até nós. O alfaiate disse que eu tinha entregado alguns ternos ali por engano. O gerente disse que sabia disso, mas que eu tinha insistido para ele pegar as roupas, então ele pegou e guardou. O gerente buscou os ternos e entregou para o alfaiate. O alfaiate disse ao gerente que eu deveria ter entregado na Bemoreira e pediu desculpas. Eu tinha entregado os ternos nas Casas Pernambucanas.
Meu pai ficou dizendo que não sabia o que fazer comigo, só me matando mesmo, que eu não prestava pra nada, que eu só precisava fazer uma coisa, só uma e nem isso eu foi capaz de fazer certo. Meu pai me pegou pela orelha e me arrastou para fora das Casas pernambucanas dizendo não saber o que fazia comigo. O alfaiate disse que era melhor eu não voltar mais ao trabalho, que eu era muito inquieto e que ele iria arrumar outro ajudante.


Meu pai saiu me puxando pela orelha um bom tempo, depois que soltou minha orelha deu um tapão com força na minha nuca e eu cai no chão, esfolei o braço que ficou sangrando. Meu pai me mandou sumir da frente dele, então limpei o sangue do braço na camisa e sai correndo pra casa e fui direto pra debaixo da mesa. Meu pai chegou em casa e contou que eu tinha entregue os ternos na loja errada. Foi o bastante para meus irmãos ficarem me zoando, me chamarem de louco e dizerem que a única coisa que eu fazia direito era respirar. E riam muito. Minha mãe fez curativos no meu braço e enrolou uma faixa porque estava machucado do cotovelo até o pulso. 

Texto: Thymonthy Becker




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sábado, 31 de agosto de 2019

ENGRAXANDO SAPATOS





Meu pai procura sempre arrumar um emprego para meus irmãos assim que ele entende que já podem trabalhar. Mas nem sempre ele consegue, outras vezes ficam no trabalho por pouco tempo, talvez porque são novos ainda. Eu comecei a engraxar sapatos quando era bem novo ainda. A caixa de engraxar sapatos era do meu irmão mais velho, foi feita na empresa onde meu pai trabalha. Quando meu irmão arrumou outro serviço, passou a caixa para o irmão mais novo.

E foi assim passando de irmão em irmão. Agora foi passada para mim. Todos meus irmãos já foram engraxates antes de arrumar o primeiro emprego e agora chegou minha vez. Eu ia para a cidade e ficava no cruzamento das duas principais ruas, porque ali passava a maioria das pessoas a pé. Muitos que queriam engraxar os sapatos não acreditavam que eu seria capaz de engraxar os sapatos deles direito. Achavam que eu era muito novo. Alguns perguntavam pelo meu irmão que engraxava antes de mim, porque ele não estava engraxando mais sapatos e eu dizia que ele tinha arrumado outro emprego.

Com isso eu não engraxava quase sapatos nenhum. Acho que porque as pessoas não acreditavam que eu daria conta de fazer direito ou porque tinha que ficar em pé para engraxar os sapatos. Alguns outros engraxates que também engraxavam ali na cidade tinham cadeira para a pessoa que fosse engraxar se sentar, mas eu não tinha cadeira. Já era difícil para mim carregar a caixa e não conseguiria carregar uma cadeira também. Meu pai achava que a culpa era minha, que eu devia estar brincando em vez de estar procurando quem quisesse engraxar sapatos.

Com isso ele mandou que eu não ficasse parado na esquina esperando as pessoas, que era para eu sair pelas ruas e assim mais pessoas poderiam me ver com a caixa de engraxar e eu poderia ganhar mais dinheiro engraxando sapatos. Com isso eu não ficava parado na esquina mais, e saía com a caixa, que era relativamente pesada para mim, pelas ruas da cidade. Andava pouco e parava para descansar, pois ficar carregando aquela caixa, que não era pequena, cansava.

Não mudou muita coisa de antes. Tinha dia que não engraxava nenhum sapato e tinha dia que era uma só pessoa que pedia para eu engraxar os sapatos dela. A maioria não acreditava que eu conseguisse engraxar direito. Como para meu pai a culpa era sempre minha, ele decidiu que iria arrumar outro serviço para mim. Mas até que ele decidisse o que eu ia fazer, continuei na cidade com minha caixa de engraxar sapatos, ainda que não engraxasse sapatos de ninguém.

Texto: Thymonthy Becker





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