A FAZENDA: Professora
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domingo, 19 de agosto de 2018

A PROPOSTA DA PROFESSORA




A PROPOSTA DA PROFESSORA
A parte da fazenda onde estava plantado o trigo já está quase pronta para um novo plantio. Estamos esperando apenas, o que dizem por aqui, a terra descansar. Está toda nivelada, adubada e pronta para entramos com a semeadeira e fazer o plantio novamente. Ano após ano eh sempre a mesma coisa, não vejo nada mudar e nada diferente acontece. A não ser alguns empregados que saem da fazenda porque arrumam outro emprego na cidade ou vão embora para outra cidade para trabalhar ou estudar na faculdade.
Outros empregados chegam para trabalhar aqui depois de ficarem desempregados ou porque já queriam trabalhar aqui na fazenda e só não tinha vindo ainda porque não tinha vaga. Muitos empregados estão aqui a muito tempo, bem antes de eu estar vivo. Outros não ficam muito tempo. Parece que não gostam do serviço e vão embora pouco tempo depois para trabalhar em outro lugar na cidade ou outra fazenda.
Tenho me encontrado com a professora de ciências quase todos os dias, mas sem deixar que algum colega meu de serviço ou mesmo meu chefe me veja com ela. Sempre a encontro no mesmo lugar. Na árvore frondosa que tem junto a cerca de arame farpado. Hoje fui me encontrar com ela a tardinha novamente. Nossas conversas ficam sempre em torno da fazenda, do meu trabalho e do trabalho dela. Mas hoje ela disse que tinha uma proposta para me fazer. Fiquei meio sem jeito, mas perguntei qual era.
__A gente conversa aqui na cerca já um bom tempo. Você gosta de conversar comigo e eu gosto de conversar com você. Então queria te convidar para a gente tomar um sorvete hoje a noite lá na praça da cidade. Você disse que nunca foi na cidade. Eh uma oportunidade de você conhecer a cidade onde moro. O que acha?
__Você quer que eu saia da fazenda? Mas eu não posso sair daqui. Não posso atravessar a cerca. 
__Porque não? Eh só uma cerca. Faz assim, você não pula a cerca, você passa pela porteira. (e deu um sorriso)
__Você quer que eu saia escondido? 
__Não! Fala com ele que você quer ir à cidade tomar um sorvete. Só isso.
Dei um sorriso meio sem graça e disse:
__Não dá. Meu pai disse que eu não posso sair daqui de jeito nenhum. 
__Porque não? Você eh só um funcionário da fazenda.
Nisto meu chefe apareceu e foi dizendo:
__O que esta acontecendo aqui? O que você está fazendo menino?
__Nada. Só estou conversando com uma professora.
__Vamos embora agora. Seu pai não vai gostar disso. Desculpa moça, mas ele precisa ir.
A professora então respondeu:
__Porque isso, a gente só estava conversando e eu o convidei para ir tomar um sorvete na cidade.
__Moça, nem pense nisso. Acho melhor você ir embora. Você pode trazer problema sério aqui pra todo mundo.
__Mas o que está acontecendo? Não estou entendo.
__Desculpa moça, mas eh melhor você ir embora.
Meu chefe me pegou pelo braço e saiu me puxando como se eu tivesse feito algo que não devia. Tentei questionar, mas ele disse que quando meu pai soubesse disso as coisas não iam ficar bem feia para o meu lado. Indo com meu chefe, dei thyal para a professora que ficou na cerca olhando eu indo embora.

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

OS ENCONTROS AO ENTARDECER




OS ENCONTROS AO ENTARDECER
Agora que estamos preparando o terreno para o plantio da próxima safra, quase todos os dias eu vou até a beira da estrada ver a professora e falar com ela. Ela não falou mais sobre o que conversamos da última vez, que não entedia o que eu falava. Não ficamos conversando muito tempo, para evitar que algum outro empregado da fazenda me veja ali falando com ela. Como tem algumas árvores grandes  margeando a cerca da fazenda em alguns pontos, sempre encontro com a professora de ciência ficando atrás do tronco de uma dessas árvores, porque sem a plantação de trigo e o terreno todo plano, seria fácil me ver ali.
Em nossas conversas eu já fiquei sabendo o nome dela, a idade e sabendo que ela mora sozinha na cidade. Já sei que ela veio de um estado bem longe dali, que gosta ver jogo de vôlei, assistir novelas, comer pipoca, sorvete e batata frita. Que sente saudades da família, que queria que eles fossem morar ali com ela, mas os pais dela não queriam deixar sua terra natal, nem seus amigos e parentes. Que ela gosta muito de ser professora e ainda quer casar um dia, mas só com alguém por quem ela se apaixonasse. Ela disse que já teve namorados, mas não deu certo e que está sozinha. 
Sempre enquanto ela fica falando eu só fico observando seu rosto, que eh muito bonito, sem dizer nada para não atrapalhar o que ela diz. Sempre depois que ela para de falar ela sempre pergunta: 
__E você? Fale um pouco de você.
__Eu? Eu trabalho aqui na fazenda.
__E mora onde?
__Aqui na fazenda. Não aqui na fazenda, mas lá na fazenda.
__Acho que você já tinha me dito isso. Você tem namorada?
__Eu? Tenho nada. Nem tem ninguém para namorar aqui. Lá na fazenda até tem umas meninas, mas aqui na fazenda não tem não.
__E seus irmãos?
__O que têm eles?
__Você nunca fala deles. Nem de seus pais. Nem de amigos.
__Meus irmãos trabalham aqui na fazenda também. Meus pais também, menos minha mãe. Meus amigos não eh ninguém não, porque eu só conheço as pessoas que trabalham aqui, mas nem conheço todos que trabalha aqui, só alguns. Os caminhoneiros também eu conheço, só alguns.
__Entendi.
__Preciso ir embora porque senão eles vão sentir minha falta no trabalho. Eu volto amanha tá bom!
__Está bem. Até amanhã. Thyal
__Thyal
Saí dali rapidamente e pouco depois encontrei com o meu chefe do serviço que me perguntou o que eu fazia atrás daquela árvore. Eu disse a ele que não estava fazendo nada, mas ele ficou insistindo e então eu disse que estava descansando. Ele então me perguntou:
__O que você está me escondendo?
__Nada. Só estava ali parado. Porque, não pode?
__Ta bom. Vamos indo.
E fomos indo embora com eu na frente e ele atrás dizendo: __Te cuida moleque. 

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

O REENCONTRO




O REENCONTRO
De volta a vida depois da colheita do trigo, eu já podia ir até a beira da estrada ver se encontrava com a professora de ciências. E assim o fiz. No primeiro dia depois da colheita eu não a vi. Acho que fui tarde demais para a estrada e acredito que ela já tinha ido passado, ou ela não foi aquele dia.
No dia seguinte, numa quinta feira, quando cheguei na beira da estrada vi a professora vindo ao longe. Fiquei sorrindo ali sozinho, satisfeito de saber que ela passaria por mim novamente. Estava feliz só de saber que poderia falar com ela outra vez, porque mesmo sem poder ter ido lá, não deixei de pensar nesta professora. E quando ela chegou onde eu estava, junto a cerca de arame farpado que contorna a fazenda, foi logo perguntando:
__Você aqui? Pensei que não o veria mais. Sumiu por uns tempos.
__Estava na colheita do trigo. Quanto estamos colhendo o trigo eu fico ocupado de manhãzinha até o anoitecer. Não dá pra deixar a tarefa.
__Ha ta. Eu vi mesmo um movimento grande de caminhões aqui na estrada e na cidade. Você faz o que na colheita?
__Tudo que eu saiba fazer direito. (dei uma rizada meio sem jeito) Eu dirijo a colheitadeira, as vezes alguns caminhões, manejo os equipamentos da colheitadeira, fico sinalizando para os motoristas manobrarem as carretas e os caminhões. Ajudo na balança da fazenda para a pesagem das carretas e caminhões vazios e cheios. Eu sou meio que faz quase tudo, porque ainda não sei muita coisa. (fiquei rindo sem jeito)
Ela sorriu também e perguntou se eu não era muito novo para dirigir caminhão e os equipamentos. Respondi dizendo que na fazenda todo mundo aprendi a fazer tudo desde pequeno. Disse a ela que também as vezes ajudo a servir o café para nós mesmo que trabalhamos lá na fazenda. Ela então perguntou sobre minha família.
__Você tem irmãos?
__Tenho sim. Um mais velho que eu. O outro eh mais velho ainda e o outro eh mais velho que esse mais velho ainda.
A professora sorriu parecendo que eu tinha dito algo bem engraçado e comentou:
__Você quer dizer que você eh o filho caçula?
__Eu sou o mais novo lá de casa. Dos filhos lá de casa, claro.
Ela riu mais ainda e falou:
__Você eh o caçula então! Porque o filho mais novo eh o filho caçula.
__Eh.... mas não eh exatamente assim (E ri meio sem graça)
__Eh... mas não eh? Não entendi. Você tem um jeito meio diferente de conversar. Não estou te criticando tá! Acho até legal esse jeito de falar. Eu só não estou conseguindo entender tudo que você diz, ainda.
Ri meio sem graça e já fiquei meio sem jeito e então disse a ela que precisava ir. Ela queria que eu conversasse mais um pouco ela, mas eu disse que não dava porque estavam me chamando.
Sai dali correndo pela estrada da fazenda e pode ouvir ela dizer para eu encontrar com ela amanha. Depois comecei a caminhar meio que chateado com o que ela tinha dito, embora eu não tenha entendido muito bem o que ela quis dizer.

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

A DÚVIDA




A DÚVIDA
A colheita na fazenda segue, como diz o pessoal daqui, a todo vapor. Momentos em que a fazenda fica super agitada. Muita gente, muitos caminhões e muitas conversas nas horas do almoço, café e jantar. E são nestas conversas que eu fico sabendo mais do mundo que que na escola onde eu sou aluno único de uma professora para todas as matérias.
Muitas perguntas que faço para os caminhoneiros, eles não responde ou dizem que não podem falar sobre isso comigo. Eu não sei o porque, mas acabo mudando de assunto, porque se eu insistir eles podem nem quer falar mais comigo e para mim seria péssimo, porque como diz um colega de trabalho meu aqui da fazenda, os caminhoneiros são nossos olhos e ouvidos foram da fazenda. E faz sentido, porque eles trazem notícias de tudo que acontece no país e nas conversas entre eles, durante o almoço, café ou jantar, eles falam de coisas que eu nem imaginava existir ou que aconteciam mundo afora.
Mas desta vez eu comecei a questionar alguns caminhoneiros o porque de não me responderem certas coisas e porque evitam falar comigo sobre alguns assuntos. Antes eu não importava quando não falavam comigo sobre certos assuntos, mas comecei a ficar curioso o porque disso. E a resposta que me deram me deixou mais curioso ainda. Não só curioso, mas também queria saber o porque não podia. Porque eles me disseram que eu não devia e nem podia saber sobre certas coisas. Insisti em saber porque, mas ele se limitaram a dizer: __Pergunte para o seu pai.
Estou só esperando a colheita acabar para tentar encontrar com a professora que sempre passa na estrada que margeia a fazenda. Eu penso nela todos os dias e fico imaginando estar falando com ela novamente. E, quem sabe até pergunte a ela sobre o que os caminhoneiros não me respondem. Estou começando a ficar com muitas dúvidas na cabeça

A FAZENDA HORIZONTE PERDIDO




A FAZENDA HORIZONTE PERDIDO
Nesta fazenda onde moro, não que eu more lá na fazenda, mas moro aqui na fazenda, faz de tudo em relação ao que planta. Do plantio, processamento e comércio de grãos, produção de sementes, reflorestamento, transporte, exportação e importação. São mais de 400 mil toneladas colhidas por ano e cultivadas em 130 mil hectares na primeira safra. Juntando as culturas da segunda safra a média de produção dos últimos anos tem sido de cerca de 700 mil toneladas. “A soja não é só um movimento passageiro, e nunca será”. 
No ano passado, a fazenda comercializou 4,3 milhões de toneladas de soja entre produção própria e de terceiros, e 546 mil toneladas de grãos inteiros, óleos e farelos. “Nos próximos anos, serão sete milhões de toneladas de grãos, com a meta de 12 milhões de toneladas no médio prazo”, dizem aqui. 
Toda a oleaginosa certificada no mundo na Associação Internacional de Soja Responsável, cerca de 170 mil toneladas por ano, metade é produzida nesta fazenda onde trabalho. Aqui eles vendem muito para a Unilever. No mês passado, o dono desta fazenda onde trabalho estava em Londres em um evento organizado pela RTRS destinado a representantes de cadeias de supermercados na Europa. 
Dizem que a tempos atrás essa fazenda era considerada inimiga do meio ambiente. De inimiga do meio ambiente, a fazenda se transformou em interlocutora respeitada das organizações não governamentais (ONGs), chamada pelo próprio Greenpeace para discutir a produção sustentável de soja. Em fevereiro deste ano, a fazenda recebeu o mais recente reconhecimento de um organismo internacional. 
Essa eh a fazenda onde trabalho. Se você estiver bem no meio da fazenda só verá plantações desta fazenda a perder de vista. E se quiser percorrer toda a fazenda, você precisará de um carro ou caminhão e vai precisar de um dia inteiro para isso.

segunda-feira, 23 de julho de 2018

A PROFESSORA DE CIÊNCIAS




A PROFESSORA DE CIÊNCIAS
Trabalhando na plantação de trigo nem sempre eu podia estar a beira da estrada da cidade que margeia a fazenda. Mas sempre que fosse possível eu ia até o local onde vi aquela mulher que vinha pela estrada, para tentar vê-la novamente. Em uma destas tentativas encontrei com esta mulher novamente e sim, conversamos.
Ela me cumprimentou o que me deixou meio sem jeito e com um pouco de vergonha, mas totalmente encantado com seu jeito e sua beleza. Conversando, ela me disse que era professora de ciências na escola da cidade e dava aulas para os meninos do ensino fundamental até a 4ª série. Disse que não era deste estado do país e que tinha chegado até ali em busca de uma vida melhor do que a que vivia em sua cidade natal.
Eu não tinha muita coisa pra dizer de mim, mas disse tudo que sabia de minha vida.
Que eu tinha nascido na fazenda, não na fazenda, mas na fazenda. Que sempre morei ali e nunca sai da fazenda porque eu não podia atravessar a cerca da fazenda. Disse a ela que dentro da fazenda tem sala que eh como se fosse a sala de aula e era lá que eu estudava. Somente eu estudo nesta escola da fazenda porque todas as outras pessoas que estão estudando vão para a escola na cidade. E que a minha professora também morava na fazenda, na fazenda mesmo, e ela dava aula de todas as matérias pra mim inclusive de ciências. 
Eu ainda falava quando ela me interrompeu. 
__Você mora na fazenda, mas não mora na fazenda, mas na fazenda, como assim? Não entendi. - Falou isso sorrindo.
__Eu moro aqui na fazenda, mas não moro lá na fazenda, mas na fazenda.
Ela sorriu novamente, balançou a cabeça como estivesse negando alguma coisa e perguntou:
__Porque você não pode sair da fazenda? 
__Eu não sei por que, tem que perguntar para o meu pai. Eu já perguntei a ele, mas ele sempre fala que eh para o meu próprio bem e que eh para mim nunca tentar sair.
__Você não acha muito estranho isso não?
__Não.
Ela então disse que precisava ir embora, mas queria me encontrar novamente porque tinha gostado de conversar comigo. Ela disse que passaria ali na estrada todos os dias mais ou menos no mesmo horário. Disse a ela que nem sempre eu podia ir ali, mas faria de tudo para ir vê-la novamente. Ela disse que ia gostar muito de voltar a conversar comigo. Ela me deu thyal e foi indo embora. Eu fiquei olhando ela indo embora pela estrada já querendo vê-la novamente. Enquanto eu estava debruçado no mourão da cerca olhando ela fazer a curva da estrada, meu colega de serviço chegou me chamando para trabalhar e perguntando o que eu fazia ali.
Não quis falar com ele sobre a professora com quem estava conversando, apenas disse que não estava fazendo nada, só olhando a estrada. Ele me então ficou sério e disse:
__Não está tentando pular a cerca não né? Você sabe que não pode sair de dentro da fazenda, ainda mais sair para uma estrada.
__To não, estava só olhando os passarinhos que estavam pousados na estrada, mas já foram embora.
__Então vamos, porque tem muita coisa ainda pra gente fazer.
Sai dali e voltei para meu trabalho nos trigais, mas sem deixar de pensar naquela professora que para mim, era a mulher mais bonita que eu já tinha visto.